Grávida e vegan

Um monte de gente me pede para escrever sobre gravidez e veganismo. Demorei 9 meses para fazer isso porque eu simplesmente não via nada demais em estar grávida e ser vegan! Essa é minha dieta e estilo de vida há mais de 10 anos, e acho que estou tão acostumada às suas implicações que a gestação só mudou para mim o que mudou para todas as outras gestantes: maior preocupação em ser saudável, restrição a alguns tipos de alimentos (tipo cafeína), aumento na quantidade de outros (tipo couve), comer chocolate para sentir o bebê mexer, e assim por diante. Eu simplesmente não sabia o que escrever, então decidi DEScrever minha experiência. Espero ajudar outras veganas barrigudas!

Informação foi o que me fez virar vegan e, ao mesmo tempo, o veganismo me fez ir atrás de mais informação ainda. Desde sempre li muito a respeito; participei de congressos; vi filmes e documentários; pesquisei na internet. Isso resultou numa enorme mudança de hábitos: antes eu costumava jantar um prato de arroz, feijão, hambúrgueres, ovo frito e bacon. Passei a me preocupar mais com o que comia, primeiro para evitar ingredientes de origem animal (sou vegan por motivos éticos), depois para encontrar maior diversidade e variedade, finalmente para ser mais saudável. Incluí na minha dieta uma porção de frutas, verduras, legumes, sementes, nozes, cereais, leguminosas, castanhas e temperos para os quais eu torcia o nariz antes (mas coentro, algas, pimentão e quiabo continuaram de fora – simplesmente não descem!). Comecei a cozinhar e a descobrir pratos, culinárias e ingredientes, e a ir à feira e ao mercado com outros olhos. No começo, a preocupação era com a proteína, até que esse mito caiu e o mundo vegano descobriu que o problema é na verdade a vitamina B12 – ao que parece, o único nutriente impossível de se encontrar exclusivamente em fontes vegetais (só de origem animal ou sintética). Nessa época, acreditava-se que dava para conseguir B12 de levedura de cerveja e em algas, mas estudos demonstraram que se trata de um análogo da vitamina, que não a substitui. Bom, com tanta informação, atividade física e hábitos saudáveis vieram de brinde quase que automaticamente, como complementos da dieta vegana (não é à toa que o pôster no consultório do meu médico tem, além de diversos alimentos, uma mulher praticando yoga e um sol – luz também é importante, e não é porque eu acho que podemos viver dela ou qualquer outro motivo ‘new age’ – é para o corpo produzir vitamina D mesmo).

Falando no médico, cerca de dois anos antes de engravidar decidi procurar um nutrólogo (médico especializado em nutrição) para ver se estava tudo bem comigo, principalmente em relação à B12, e em busca de orientação sobre como balancear melhor a alimentação. Na época ainda não planejava ser mãe, nem tinha qualquer sintoma ou problema de saúde – simplesmente achei que seria bom fazer um check up. E que check up! A primeira consulta durou umas 2 horas: ele perguntou tudo sobre meu histórico de saúde e hábitos de vida, fez a bioimpedância (que mede água, massa magra e gordura corporal, entre outras coisas) e me pediu muitos exames de sangue. Voltei algum tempo depois com os resultados e aí começamos a tentar deixar as coisas em ordem: dá-lhe injeção de B12, gotinhas e cápsulas de vitaminas. Descobri que também estava com carência de vitamina D, depois de anos morando na cidade da garoa e cultivando uma branqueleza impecável, e precisava de um reforço em alguns nutrientes (zinco e cálcio, por causa da vitamina D). Ficamos nessa um bom tempo: exames, suplementação, mudança de hábitos, até conseguir chegar num equilíbrio. Minha B12, por exemplo, só melhorou com uma super dose diária via oral – as injeções não foram tão bem absorvidas pelo meu organismo.

Depois de quase 2 anos, saí satisfeita do consultório dele: finalmente tinha conseguido balancear quase tudo! Agora era só fazer a manutenção com alimentação balanceada e a suplementação normal de B12 e vitamina D, que estava no limite mínimo e poderia prejudicar a absorção e retenção do cálcio. Eu estava com os nutrientes em ordem, praticando atividades físicas (yoga e corrida) e levando uma vida saudável (dentro do que São Paulo permite, é claro!).

Essa época coincidiu com minha decisão de engravidar. Além do controle do nutrólogo, outro que sempre mantive em dia é o da ginecologista: minha mãe teve câncer de mama e faço parte do grupo de risco, então nunca deixei isso atrasar. Felizmente, tudo estava em ordem da parte da GO também! Já comecei a tomar um multivitamínico para grávidas (o Materna) enquanto terminava os últimos suplementos do nutrólogo (que já tinha passado ácido fólico nesta última leva) e trancava as camisinhas na gaveta (por causa do risco do câncer, tive que parar de usar anticoncepcional aos 26 anos, depois de 10 anos de pílula). Conseguimos o resultado positivo no primeiro mês de tentativas!

Sei que estar com tudo em ordem antes me ajudou a engravidar facilmente e a ter uma gestação vegana tranqüila. E por ‘tudo em ordem’ não me refiro só à parte clínica, mas também aos hábitos saudáveis de alimentação e prática de atividade física. Arrisco dizer que ser vegan, ativa e saudável me ajudou a não sofrer ou sofrer menos os vários efeitos colaterais da gravidez: escapei das estrias, de vomitar (mesmo ficando enjoada, não coloquei nada pra fora nenhuma vez), de ficar inchada, da prisão de ventre, de ganhar peso demais e de sofrer dores insuportáveis na coluna. Com exceção dos ataques de pânico de mãe de primeira viagem, tive uma gestação bem sossegada. Escutei o tempo todo que ‘o pior ainda está por vir’, mas o pior não chegou nunca: escrevo este texto às 38 semanas de gestação sem praticamente ter passado por nada disso. E minha bebê se desenvolveu bem: ela estava sempre um pouco acima da média de meninos, ou seja, comprida e gorducha, mas sem sair do que é considerado saudável (e eu me lembro de ter que explicar para outra grávida do meu trabalho que mesmo continuando ‘sem comer nada’ – oi? – não faltariam nutrientes para a minha filha). Confesso que só saí perdendo no quesito ‘gases’: afinal, uma dieta vegan tem muitas fibras, o que faz o intestino funcionar melhor, o que enriquece a flora intestinal, o que significa mais bactérias produzindo mais gases…

Tive a sorte também de ter o acompanhamento de uma excelente ginecologista e obstetra, um atencioso especialista em medicina fetal (que fez todos os US) e, é claro, mantive as consultas com o nutrólogo. Logo que engravidei, voltei nele – que, além da Materna, me passou mais ferro, mais B12 e mais vitamina D (estávamos em pleno inverno), já prevendo o que o bebê iria sugar de mim e que eu teria dificuldades de repor só com a alimentação, ainda mais com os enjôos do primeiro trimestre. No meio da gestação, novo controle: desta vez focando no ferro e no cálcio (e mantendo a B12 e a vitamina D), antecipando a perda de sangue do parto e o que vai embora na amamentação. Também optei por suplementar o óleo de linhaça com cápsulas manipuladas, porque durante a gravidez simplesmente tomei pavor do sabor da semente e do óleo para temperar a comida, e esta é uma importante fonte vegetal de ômega 3 e 6.

Uma vez o marido, vendo minha coleção de potes de vitaminas em cima da cômoda, brincou que era ‘mais fácil comer carne’. A verdade é que toda gestante, vegana ou não, precisa de suplementação. No meu caso, acho que ela foi ainda mais completa (com o cálcio e a vitamina D) por causa de uma deficiência anterior que ainda estava sendo tratada e porque eu fiz um acompanhamento minucioso e detalhado com um médico especialista em nutrição. Já cansei de ouvir gestantes onívoras reclamando do enfraquecimento dos dentes, por exemplo, sinal de perda de cálcio; elas provavelmente não sabem que estão com este problema porque não o investigam, como eu fiz. Um pré-natal bem feito, o que não se resume à questão nutricional, mas também à ginecológica e obstétrica e à fetal, é essencial. Afinal, desde que nasça com saúde, no que vier depois a gente se vira: como diz minha mãe, onde comem e vivem dois, comem e vivem três.

14 Respostas to “Grávida e vegan”

  1. Isabella Says:

    Ave! Espetacular! Você cuidou da saúde e da dieta com uma minúcia de dar gosto – ah se todas as mulheres fossem assim…
    Eu era freegan antes da gravidez #2 (só comia prod de origem animal – porém nunca carne – se era grátis, alguém me deu porque caiu no chão, ou porque no trabalho estavam jogando fora). Aí com o baby 2 eu “caí” tremendamente: fiquei com desejo de quiche (que eu odeio). Comia quiche todos os dias, às vezes 2x ao dia, com uma voracidade de leão. Tentei fazer o de tofú, mas não rolou, não “tapou o buraco”.
    Aí na amamentação fiquei com vontade de iogurte grego p tempo todo (que é de vaca). Aí relaxei, vi que se não ia ser do fundo do coração, meu freeganismo poderia esperar. Pelomenos compro tudo orgânico… e não abandonei meu vegetarianismo.
    Mas tb tive que suplementar com cápsulas de ômega 3, ferro e multivitaminas p/ gestante como vc fez.

  2. Glauce Says:

    Muito bacana o texto, Isadora, acho que quanto mais informação sobre o veganismo ligado à gravidez, melhor, pois ainda não se vê tanta coisa publicada. Você recebeu alguma indicação de diminuir os alimentos que causam gases agora no final da gestação? Pergunto isso porque a esposa de um amigo não diminuiu e a bebê sofreu muito com as cólicas nos primeiros meses (mais que o normal) e disseram a ela que foi também consequência dos alimentos que ela estava consumindo.

    Tudo de bom pra vocês e não deixe de postar também sobre o nascimento e o depois!

  3. tudomuitoestranho Says:

    Glauce, eu segui uns conselhos tipo mastigar melhor a comida, evitar líquidos junto com as refeições e maneirar nos alimentos muito ‘gaseosos’ – tipo, um prato de arroz, feijão, soja, repolho e couve-flor é de matar, né, hehe. Mas tudo isso para evitar gases em mim durante a gestação.

    Há muitos mitos sobre essa história de que a alimentação da mãe pode causar gases no bebê. Cólicas e gases são causados por ar engolido pela criança; isso ocorre porque o bebê ainda está aprendendo a deglutir ou porque a pega do seio não está sendo feita corretamente, além do intestino dele que ainda está se acostumando a processar o leite materno. Atividade física sim, antes de amamentar, produz uma substância que passa pelo leite e pode causar desconfortos intestinais no pequenino.

  4. Anelise Csapo Says:

    Por que só agora eu descobri seu blog? Non creo! Tô me matando prá escrever um texto sobre o assunto e vc vem e destrói. Parabéns! Elucidativa, inteligente, organizada e genial! Babei e pasmei! Não vou mais sair do seu blog, vc é fantástica demais!

    BJS!

  5. nic Says:

    Isa, excelente texto!! Vegan proud! Beijos saudosos, Nic.

  6. Tes Saloniki Says:

    Boa tarde!

    Seu artigo foi divulgado no blog Planeta Vegetariano, com os devidos créditos. Não deixe de conferir em http://planetavegetariano.blogspot.com/2010/03/gravida-e-vegan.html.

    Desejamos também muitas felicidades para você e o bebê veggie.

    TES

  7. Gravidez vegana « crianças veganas Says:

    […] Gravidez vegana Ir aos comentários Grávida e vegan, Por Isadora Fernandes […]

  8. finallyvegan Says:

    Nossa, querida! Adorei! Adorei!

    Você realmente fez o que eu queria/ quero fazer com minha saúde! Eu sou novinha como vegan, mas vou chegar lá… E com certeza quando for ter o meu ‘pãozinho no forno’ irei ser tão cautelosa como vc!

    Parabéns e agradeço muito por partilhar a experiência! Isso me tirou vários fantasmas!

  9. Paulo Says:

    Estou tentando engravidar e entrei no seu blog por outras matérias e fiquei muito feliz ao ver este post, pois sou vegetariana desde a infância. Algo me diz que irei visitá-lo muito!

  10. Diário de uma gravidez vegana | ViSta-se Says:

    […] decidi DEScrever minha experiência. Espero ajudar outras veganas barrigudas!” Trecho de Grávida e Vegan. Acesse o blog | […]

  11. Dani Says:

    Oi, adorei seu artigo e gostaria de saber se você pode fornecer os dados para contato com o nutrólogo.

  12. Maria José Nia Says:

    Parabéns pela matéria! excelente ferramenta de conscientização!

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